04-01-2010
Tem coisa mais chata que ciência? Tem! Um texto mal escrito sobre ciência. E não tem fórmula para fazer um bom texto nessa área. O pobre do escritor tem que experimentar aqui e ali e torcer para dar certo. E quando dá, corre o risco de ser tachado de sensacionalista. Pode?! Pode!
Entre erros e acertos, a gente percebe que algumas coisas funcionam. Por exemplo, mostrar como o tema científico interfere no dia-a-dia das pessoas. A literatura faz isso com maestria. Com um olho no leitor, promove o diálogo entre o cidadão e o tema por meio de uma trama de analogias, metáforas, contextualizações, resgates históricos e abordagens interdisciplinares que provocam a reflexão.
É de Aldous Huxley (1894-1963), escritor inglês, um dos melhores exemplos: Admirável Mundo Novo (Brave New World), escrito em 1932, até hoje desdobra-se em novas leituras para o cinema, a música e a literatura, nos colocando com o pé atrás diante de alguns preceitos científicos.
O livro trata de uma sociedade num futuro distante que é pré-condicionada biológica e psicologicamente para viver em harmonia. Leis e regras rígidas dividem as pessoas em castas para fins sociais específicos e assim toda a engrenagem social, política e econômica funciona como um reloginho.
Em tese! Como tudo na natureza, sempre há algo que escapa ao controle. Por isso, nos casos de crise existencial e similares, a solução é a segregação e/ou ingestão do soma, uma droga entendida como sem efeitos colaterais, que restaura a harmonia e o equilíbrio para o bem de toda a comunidade. Um livro que deveria estar na estante de todas as casas.
Huxley tinha no seu momento histórico um cenário de guerras, ditaduras, manipulações da imprensa e da propaganda, conflitos entre ideais comunistas, capitalistas, nazistas e fascistas e tudo isso envolto num franco avanço técnico-científico que influenciava o sistema de produção. Mais tarde, em 1959, o próprio escritor publicou Regresso ao Admirável Mundo Novo, um ensaio que discute as muitas predições do romance que estavam a realizar-se com o progresso científico e a manipulação das vontades humanas bem antes do tempo imaginado por ele.
Um estudo de Ana Maria Sanches Mora, física formada pela Univesidad Autónoma de Mexico e profissional dedicada a divulgação científica, mostra que bons textos de divulgação científica apresentam algumas das características a seguir: base na história ou na tradição, humor, entrelaçamento entre arte e ciência, uso de analogias e metáforas, dimensão cotidiana, referência a cultura popular, reconhecimento de erros humanos e dessacralização da ciência.
Segundo ela, o uso de um ou vários desses recursos de forma criativa, juntamente com um bom texto, contribuem para repercutir o tema científico em diferentes públicos e perpetuá-lo ao longo do tempo. A divulgação científica vai além da comunicação de ideias. Ela precisa causar nas pessoas uma emoção efetiva ou estética e isso tem muito a ver com a maneira como o leitor é envolvido no enredo.
Monteiro Lobato colocava a criança como protagonista das histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo. Foi um dos primeiros a falar sobre ciência para o público infanto-juvenil brasileiro e um dos mais influentes escritores do século XX. Se as obras são paradidáticas ou literárias isso é outra questão. O mérito inquestionável é que ele cativou um público negligenciado até então e construiu uma bela ponte entre ciência, cultura e cidadania.
O fato é que aqueles que estão à margem do conhecimento científico ficam excluídos de uma das maiores conquistas da humanidade. Além disso, o conhecimento gerado pela ciência atinge a todos e por isso é um tema importante demais para ser confiado a poucos. Unir arte, literatura, comunicação e ciência pode ser um caminho para colocar a ciência no universo de entendimento do cidadão comum.
Soraya Pereira, jornalista da Embrapa Agroindústria de Alimentos