14-04-2004
O ir e o vir das águas no Pantanal, ou seja, a enchente e a seca, conhecido cientificamente como pulso de inundação é o processo ecológico essencial, ou o fator chave que comanda a riqueza, a diversidade e a abundância de vida no Pantanal.
Por muitos anos, os cientistas que estudaram o funcionamento da Amazônia procuraram desenvolver a teoria dos pulsos de inundação, mostrando que era o processo que comandava a riqueza e diversidade de vida nos ambientes inundáveis da região. O que faltava era a contraprova.
Infelizmente, essa contraprova foi encontrada no Pantanal, mais especificamente no rio Taquari. Por todo um processo de ocupação humana, aliada a sua história geológica, o rio Taquari é naturalmente suscetível ao assoreamento e teve esse processo acelerado nas últimas décadas, como mostram os estudos realizados pelos pesquisadores da Embrapa Pantanal. As conseqüências são de conhecimento de todos. Uma enorme área, estimada em 11.000 km2, passou a ficar permanentemente alagada na planície pantaneira, inviabilizando a atividade econômica tradicional de pecuária extensiva. Ao mesmo tempo, foi observada uma redução da produção pesqueira na bacia, como mostram os dados comparativos de estatísticas de pesca existentes. Se nos anos em que o INAMB (Instituto de Preservação e Controle Ambiental) coletou informações, de 1979 a 1983, a captura de peixes era, em média, de 485 toneladas ao ano, a partir do ano de 1994, quando foi implantando o Sistema de Controle de Pesca de Mato Grosso do Sul, a média observada tem sido ao redor de 62 toneladas ao ano, ou seja, cerca de 7 vezes inferior aos anos anteriores. Nesse rio, a situação ainda é agravada por toda uma cultura de pesca predatória que é mais intensa na época da reprodução, comprometendo ainda mais a reposição dos estoques.
A história da ocupação do baixo Taquari mostra toda uma convivência com o rio, na medida em que, ao ameaçar romper suas margens e inundar os campos laterais, os fazendeiros faziam todo um trabalho de manutenção de barrancas e mesmo de fechamento desses arrombamentos quando os mesmos aconteciam. Neste contexto de erosão acelerada nos planaltos e assoreamento em igual proporção na planície, os fazendeiros tentaram manter os métodos tradicionais de contenção de alagamento, mas foram impedidos pela Promotoria de Justiça do Meio Ambiente, através da alegação dos pescadores que responsabilizavam a redução da produção pesqueira ao fechamento dos arrombamentos e procuravam formar novos arrombados na esperança de ver o retorno do peixe, pois a crença é que onde “há água, há peixe”. Assim, encontram-se hoje 11.000 km2 permanentemente alagados e nem por isso houve aumento na produção pesqueira, muito pelo contrário, a redução continua.