15-07-2002
A busca da harmonia entre as atividades econômicas e a preservação dos recursos naturais demanda ações bastante abrangentes, exigindo uma ampla ação cooperativa multidisciplinar e multiinstitucional. Por terem sido extremamente setorizados e terem desconsiderado o que o próprio ambiente oferecia é que os programas para o semi-árido não irrigado têm a apresentar resultados apenas pífios. Alheia a tudo isso, a degradação ambiental continua inexorável, com zonas fortemente afetadas já afetando cerca de 22% da superfície total. Alguém muito bem disse que, em termos de recursos hídricos, já estamos tomando emprestada água pertencente à próxima geração. O grande desafio é encontrar não apenas formas de uso do ecossistema caatinga que assegurem a sua preservação, mas, também, que essas formas de uso sejam capazes de proporcionar uma oferta estável de bens e serviços, a custos competitivos, para um mercado cada vez mais exigente.
Nessa concepção, quatro etapas, não necessariamente seqüenciais, podem ser consideradas como prioritárias para que a convivência com a seca deixe de ser uma utopia e se transforme em algo possível de ser alcançado: reversão do processo de degradação ambiental, reordenamento dos espaços agro-econômicos, mudança do padrão tecnológico e inserção no mercado.
Sustar e reverter o atual processo de degradação dos recursos naturais do semi-árido parece ser a primeira medida a ser considerada em um programa de convivência com a seca. Nessas ações não devem ser esquecidos o estabelecimento de dispositivos permanentes de monitoramento que assegurem uma gestão eficiente dessas bacias no futuro e uma profunda reformulação na concepção dos atuais projetos públicos de irrigação, expandindo seus benefícios, via maior integração com as áreas de sequeiro.
O reordenamento dos espaços agro-econômicos é outra medida que se impõe pela acentuada diversificação do semi-árido, exigindo para cada espaço estratégias tecnológicas e de apoio diferenciadas. O zoneamento dos espaços próprios para cada atividade, agrícola ou não agrícola, e o conhecimento acabado de suas limitações e potencialidades, valorizando as especificidades locais, são requisitos básicos para o direcionamento de políticas públicas de apoio com o nível de eficiência requerido para regiões secas. Apenas dezesseis por cento da superfície do semi-árido apresenta bom potencial agrícola. Cerca de trinta e sete por cento dela são inaptos para qualquer atividade agropecuária. O potencial para atividades não agrícolas ainda não foi devidamente dimensionado.
A mudança no padrão tecnológico dos sistemas de produção é, na realidade, o passo crucial que irá permitir a inserção do produtor do semi-árido no mercado. A mudança implica, antes de tudo, a restruturação e o fortalecimento da, hoje esfacelada, rede regional de assistência técnica e extensão rural, e a formação de redes locais, privadas, de apoio técnico. Só assim será possível viabilizar os processos de validação e transferência do enorme acervo de tecnologias e conhecimentos gerados e disponibilizados pela pesquisa e pela própria experiência do produtor.