25-03-2001
Em recente discurso pronunciado em um congresso de agricultores europeus, o presidente do Worldwatch Institute, Lester Brown, voltou a defender a tese de que até o ano 2020 a oferta de alimentos no mundo crescerá menos que a população, o que elevará os preços médios dos produtos agrícolas. Seus argumentos são conhecidos: a tecnologia agronômica não permitirá saltos de produtividade como os obtidos no passado recente, a área agricultável está diminuindo (sobrando apenas áreas de terra fraca ou sem infra-estrutura) e, principalmente, cresce a escassez de água para irrigação.
E o Brasil, certamente, é uma exceção neste cenário, surgindo como a grande força produtora no 3° milênio: temos mais de 150 milhões de hectares agricultáveis (dos quais ocupamos hoje apenas um terço), temos 19% da água doce do planeta e nossa produtividade média é ainda muito baixa, de modo que temos um longo caminho de incorporações de tecnologia a percorrer.
Aliás, somos o país tropical que melhor tecnologia já desenvolveu, faltando apenas a sua incorporação.
Por outro lado, embora não tenhamos quase nada de proteção ou subsídio aos nossos produtores rurais (comparando-se com os 27 países da OCDE, que em 1998 gastaram 362 bilhões de dólares com diferentes formas de proteção a seus agricultores - quase 1 bilhão por dia!), estamos entre os 3 primeiros exportadores mundiais de café, suco de laranja, açúcar, e do complexo soja, sem falar em carnes, fumo, mandioca e outros produtos. E com isto, apesar de termos uma pequena participação no comércio mundial de produtos agrícolas (algo em torno de 3% do total) é este o único setor que salva nossa balança comercial. Ano após ano, o saldo comercial do agribusiness vem crescendo, enquanto que, no conjunto, nosso déficit geral é alarmante, determinante até mesmo, do ajuste cambial de janeiro passado. (Gráfico 1).
Aliás, é este setor - o do agronegócio - o maior gerador de empregos do país, cerca de 52% da PEA, contribuindo também com mais de 40% das nossas exportações totais.
Finalmente, apesar da nossa imensidão territorial e das ainda precárias condições logísticas, a privatização dos meios de transporte e da rede de armazenagem vai - a passos mais lentos do que seria desejável - aos poucos tecendo a malha de infra-estrutura que garantirá o escoamento de nossas safras.
Assim, é evidente que um futuro risonho se oferece ao agribusiness brasileiro.
No entanto, é preciso atentar para um processo dramático que envolve o setor rural, coluna dorsal do agronegócio.
Em poucos anos (de 89/92 a 94/96) o Brasil mudou drasticamente de cenário. De um país fechado com inflação alta e governo intervencionista, passou, neste período a um país "arrombado" comercialmente, sem inflação e com um estado falido, incapaz de continuar a intervir.
Esta transição provocou duas revoluções, ambas determinadas pela brutal perda de renda do setor (ver gráfico abaixo, da FGV): a "revolução barulhenta", executada pelos excluídos, pequenos produtores rurais que perderam tudo, trabalhadores desempregados no campo e devedores sem condições de pagar seus compromissos; e a "revolução silenciosa", efetivada pelos agricultores remanescentes, que teimam em ficar na atividade. Esta revolução é a maior da história da agricultura nacional e tem três vertentes: a tecnológica, visível, na qual a última palavra da tecnologia mundial é utilizada (máquinas modernas, insumos, agricultura de precisão, plantio direto, etc.); a gerencial, nas áreas comercial, financeira, ambiental, tributária, de recursos humanos; e a de modelo, em que a agregação de valor é a palavra chave.
Para que estes revolucionários tenham êxito em sua guerra, e para que a exclusão não aumente e, se possível, se recupere parte dos excluídos que custam muito mais, em termos sociais, quando vão para as cidades, e para que o otimismo se converta em realidade, são necessários 3 grupos de ações.
Em primeiro lugar, políticas públicas que nos garantam igualdade de condições para concorrer com os produtores dos países ricos. Precisamos apenas disto: taxas de juros iguais aos deles, impostos parecidos, custos de transporte e de portos do mesmo tamanho. Enfim, precisamos das reformas macroeconômicas (monetária, tributária, fiscal, previdenciária, entre outras) prometidas pelo governo.
Em segundo lugar, é fundamental uma reestruturação da organização privada, sobretudo no cooperativismo agrícola, para que as cooperativas possam cumprir seu papel extraordinário na agregação de valor e na comercialização da produção. E, é claro, esta organização privada não pode perder de vista a defesa da imagem do produtor, tão depreciada hoje, e o lobby sobre Executivos e Legislativos, em busca das reformas indispensáveis de leis como a trabalhista, a de armazenagem, a florestal entre outras.
E, por último, precisamos de uma boa negociação internacional, para que nossa renda não seja tomada no tapetão.
Pois bem, para os três assuntos estamos preparados: o Fórum Nacional da Agricultura estabeleceu as 10 bandeiras do agronegócio, que sinalizam todas as políticas públicas para o campo. O RECOOP mostra o caminho para o cooperativismo. E a OMC, em sua rodada do milênio, nos dá a chance histórica de melhorar as condições negociais do agribusiness; será uma guerra muito difícil, mas estamos melhor organizados do que nunca para enfrentá-la.
Em suma, há condições objetivas para sermos otimistas quanto ao futuro do nosso agronegócio.
Porém, cuidado: este futuro não nos está dado. É preciso construí-lo, conquistá-lo.
E esta é a tarefa dos brasileiros lúcidos deste apagar do século XX.