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O desafio de produzir palha em Roraima

16-11-2005

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Roraima dispõe de um estoque de terras de aproximadamente 1,5 milhão de hectares de campo nativo com aptidão para a produção intensiva de grãos. É um ecossistema conhecido como cerrado de Roraima ou popularmente denominado pelos roraimenses de lavrado. Até há pouco, na década de 80, nestes lavrados era produzida grande parte da proteína bovina que alimentava a então pequena população local.

A baixa fertilidade natural desses solos, um longo período seco anual e o aumento da população que aconteceu nas últimas décadas fez com que esse ecossistema, em sua forma natural, outrora capaz de suprir as demandas locais de proteína e ainda exportar o excedente para Manaus, não mais consegue fazê-lo nos dias atuais. Grande parte da pecuária migrou então para as áreas mais chuvosas do sul do Estado onde predomina a dita floresta tropical úmida onde a performance produtiva bovina é muito mais atrativa economicamente, em razão das condições edafoclimáticas desta região serem muito mais favoráveis para a produção de pastagens cultivadas, sem muito dispêndio com fertilizantes.

Paralelamente, a migração da pecuária para o sul do estado o Governo Federal construiu uma razoável infraestrutura no Estado, nas últimas duas décadas, imprescindível para o desenvolvimento: implantou definitivamente a Embrapa por aqui e fez o asfaltamento da BR 174. Esta nos propiciou o tão desejado acesso ao mercado mundial de commodites através do porto de Itacoatiara em Manaus e Porto Ordaz na Venezuela. A Embrapa, por sua vez, produziu a tecnologia que o agronegócio necessita para a incorporação dos nossos lavrados à produção de grãos.

Assim, com a implantação da logística que nos dá acesso ao mercado mundial de grãos em conjunto com a disponibilização de tecnologias os nossos lavrados, antes pouco atrativos, começam de fato a receber dezenas de produtores de outros estados da Federação e até mesmo de outros países que trazem consigo experiência e habilidade na adoção de modernas tecnologias de produção de grãos em larga escala.

Para nós da Embrapa, que juntamente com esses arrojados pioneiros na produção de soja, milho e arroz nos lavrados, vencemos a primeira batalha que é fazer produzir economicamente estes solos de baixa fertilidade natural e bastante arenosos, temos a convicção de que o grande desafio daqui por diante não é “só construir” a fertilidade desses solos para a etapa produtiva inicial, mas sim mantê-los produtivos ao longo dos anos e do tempo.

Para transformar esse grande desafio numa opção econômica viável e duradoura precisamos desenvolver alternativas para a proteção deste solo, aumentar a matéria orgânica e reciclar os nutrientes. O desenvolvimento de pesquisas com espécies de dupla aptidão como as forrageiras: braquiárias, coloniões, estilosantes, guandu, milheto e outras que quando consorciados na lavoura de milho, soja ou arroz em momentos adequados do ciclo destas poderiam ser essa alternativa.

Nosso objetivo hoje é discorrermos sobre o milheto devido ser esta forrageira a mais utilizada nos lavrados de Roraima para a formação de palhada para o plantio direto subseqüente de soja. Isso não significa afirmar que o milheto é a melhor opção de cobertura de solo para o plantio direto nos lavrados. O milheto é forrageira de clima tropical, anual de hábito ereto, porte alto com desenvolvimento uniforme e bom perfilhamento, e produção de sementes superior a 900 quilos por hectare.

Devido ao seu potencial genético, alta taxa de multiplicação, semente pequena e barata, pelas sementes possuírem altos índices de germinação e vigor, apresentando uma boa produção de massa verde e palhada de fácil manejo e dessecação simples com baixas dosagens de herbicidas.

As sementes conservam bem de um ciclo ao outro sem grandes dispêndios de energia e custos, bem como apresenta boa emergência no campo, quando não enterrado em demasia (profundidade > de 4 cm). Alguns benefícios diretos apresentados pelo milheto como: maior sinergia com a soja, o algodão e outras culturas de grãos; recicla nutrientes e os disponibiliza via palhada; apresenta efeito redutor sobre nematóide do cisto, de galha, cancro da haste e mofo branco; tem elevada taxa de acumulo de matéria seca: o que proporciona rápida cobertura do solo; inibe o desenvolvimento de ervas daninhas invasoras; reduz riscos de erosão; diminui as variações extremas de temperatura do solo, principalmente em solos arenosos.

O milheto é também uma boa opção para a pecuária, pois atende às exigências nutricionais dos animais em função de seus elevados índices de energia e proteína (15%). Apresenta alto potencial forrageiro; possibilita altíssimo ganho de peso/ animal/ dia; facilidade de implantação; excelente capacidade de rebrota; boa palatabilidade e digestibilidade; excelente alternativa para a produção de silagem, principalmente quando ocorrem problemas de veranico e défice hídrico; adaptação a vários tipos de solos, é tolerante à baixa fertilidade do solo, podendo ser utilizado para a implantação e recuperação de pastagens degradadas. Tem, portanto, bons atributos agronômicos para participar verdadeiramente da integração lavoura-pecuária, que se objetiva instalar em Roraima, pois tem dupla aptidão, servindo tanto na agricultura quanto na pecuária.

Oscar José SmiderleEnvie um email!
Pesquisador - EMBRAPA/CPAFRR

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