20-11-2004
Há muito tempo atrás, aproximadamente 200 anos, surgiu um celebre homem chamado David Ricardo dissertando sobre a relação de troca entre países, a chamada teoria das vantagens comparativas, que estava fundamentada no discurso de que os países deveriam se especializar naquilo que era melhor, mesmo se ele levasse vantagem absoluta em todos os produtos, com isso ele ganharia muito mais se especializando naquilo que ele era melhor. A teoria se baseou nas relações comerciais da época entre Portugal e Inglaterra, onde Portugal tinha vantagem absoluta na produção de vinho e tecido, mas a sua maior vantagem estaria no vinho, ou seja uma vantagem relativa nesse produto, logo deveria ocupar toda a sua força produtiva, dentre elas a mão-de-obra, na produção de vinho. Essa teoria foi levada em consideração por muitos países.
Alguns poucos anos atrás, outro celebre homem chamado Raul Pebrish, componente da Comissão Econômica para a América Latina e Região do Caribe (CEPAL), dissertou a respeito da dependência econômica provocada pela relação de troca entre países, que dava vantagens aos países desenvolvidos, centrais, sobre os subdesenvolvidos, periféricos, levando a dependência econômica. Na verdade o que se observou nesta época foi um abismo entre as nações mais ricas com relação as mais pobres, gerando uma crescente subordinação, em muitos casos um estado de extrema pobreza, este legado de atraso levou alguns países a desenvolverem um sentimento de ódio às nações centrais.
Nos dias atuais, os países periféricos grandes exportadores de produtos primários não conseguem adicionar valor agregado aos seus produtos, de forma a exportar produtos “in natura” aos países centrais, que adicionam valor e vendem o bem transformado para todo o mundo e muitas das vezes aos próprios países produtores.
Todo o esforço dos países periféricos é de tentar fazer com que esses produtos sofram um maior número de transformações no seu próprio território, antes de serem exportados.
Como tantos artigos que compõem a pauta do superávit primário da balança comercial do Brasil, o café possui a característica de ser um produto que na sua grande parte é exportado ainda “in natura”.
Atualmente o Brasil é um dos maiores produtor e exportador de café do mundo, tanto em grãos verdes, como industrializados, mas quando se trata da exportação do produto industrializado, torrado e moído, o Brasil enfrenta a concorrência severa da Alemanha e Itália, que concorrem com o país fornecedor do insumo. A Alemanha é um dos maiores importadores de café brasileiro in natura, mas gera valor ao produto no seu território para exportar ao mundo.
Muitos anos se passaram, mas o Brasil não consegue se desvencilhar do paradigma da desvantagem nas relações de troca, o café nacional não consegue realizar a transformação em nosso território, com isso o produto industrializado em outros países obtêm mais valor que o nosso. Tudo faz retornar a questão da dependência econômica na relação entre dois países, se isso ocorre com o café, que é um dos produtos mais antigos da pauta de exportações, pense com outros produtos.
O esforço tem sido feito para mudar essa situação com a organização dos produtores, tentando exportar o produto com a maior quantidade de valor agregado o possível, para que a maior fatia da renda e do desenvolvimento fique dentro do país.
Melhorar a imagem do café “made in Brazil” no exterior é de suma importância.